Quando os setores mudam de rosto: a nova presença feminina no mercado de trabalho

Imagem representativa da presença feminina no mercado de trabalho em contexto profissional

No debate sobre o papel das mulheres no mercado de trabalho há uma sensação recorrente de repetição. Ano após ano, regressam as mesmas estatísticas sobre desigualdades salariais persistentes, menor presença feminina em cargos de liderança ou dificuldades acrescidas na progressão profissional. Este ano não foi exceção: em Portugal, as mulheres continuam a ganhar, em média, menos 15,4% do que os homens e a taxa de desemprego feminina permanece ligeiramente superior à masculina.

A repetição destes dados levanta uma questão inevitável: se todos os anos discutimos os mesmos problemas, o que está realmente a mudar no mercado de trabalho?

Parte da resposta pode estar em transformações menos visíveis, mas cada vez mais relevantes. Um dos sinais mais claros dessa mudança é a crescente presença feminina em setores historicamente associados ao universo masculino. Áreas como a construção ou o imobiliário, durante décadas marcadas por uma forte predominância masculina, começam agora a revelar uma nova dinâmica na composição das suas equipas.

No setor da construção, por exemplo, a presença feminina registou um crescimento de 22,2%, um indicador que reflete não apenas uma maior abertura destas áreas a novos perfis profissionais, mas também uma mudança gradual nas expectativas e trajetórias de carreira das próprias mulheres.

Esta evolução não surge de forma isolada, pois resulta da conjugação de vários fatores que têm vindo a transformar gradualmente a forma como as mulheres se posicionam no mercado de trabalho e como as próprias organizações encaram o talento. Por um lado, o aumento do nível de qualificação feminina tem permitido o acesso a funções técnicas e especializadas em setores onde antes a representação era residual. Por outro, as organizações estão a atravessar processos de transformação cultural impulsionados pela integração de novas gerações de profissionais, que valorizam ambientes de trabalho mais diversos, inclusivos e alinhados com princípios de equidade.

No entanto, a presença feminina nestes setores não deve ser vista apenas como um avanço em termos de igualdade de oportunidades. A diversidade tem também um impacto direto na forma como as empresas operam. Equipas mais heterogéneas tendem a integrar diferentes perspetivas, experiências e formas de pensar, o que se pode traduzir em maior capacidade de inovação, decisões mais informadas e ganhos de produtividade.

Ainda assim, seria prematuro e injustificado afirmar que a mudança está concluída. As desigualdades salariais continuam a marcar o percurso profissional de muitas mulheres e a progressão para cargos de liderança permanece um dos principais desafios. Em vários contextos, a entrada em novos setores não se traduz automaticamente em acesso a funções de decisão ou em condições de reconhecimento equivalentes.

É precisamente neste ponto que o papel das empresas se torna determinante, ao passarem a criar condições concretas para que a igualdade de oportunidades se materialize no dia a dia das organizações. Isso implica rever modelos de progressão de carreira, promover maior transparência salarial e desenvolver culturas organizacionais que valorizem o talento independentemente do género.

Na Eurofirms Portugal, por exemplo, orgulhamo-nos de ter 81% dos cargos de liderança ocupados por mulheres, e de contar com 76% de mulheres na equipa. Adicionalmente, em 2026 o Grupo Eurofirms passou também a contar com uma mulher como CEO.

Ainda assim, ano após ano, as mesmas estatísticas continuam a surgir no espaço público. Embora a transformação do mercado de trabalho não aconteça ao ritmo das efemérides, a entrada de mais mulheres em setores tradicionalmente masculinos é um sinal positivo de mudança. Agora, é necessário que o mercado de trabalho continue a apostar na capacidade de transformar, de forma duradoura, as estruturas onde o trabalho acontece.

Lucília Queirós
Commercial Business Leader & Foundation Leader, Eurofirms Group Portugal