O trabalho temporário tem vindo a atravessar uma transformação significativa, impulsionada pela evolução das plataformas digitais e, mais recentemente, pela incorporação de inteligência artificial nos processos de gestão de talento. Mais do que tecnológica, esta mudança redefine a forma como empresas e pessoas se relacionam com o trabalho.
Nos últimos anos, assistimos a uma crescente digitalização de todo o ciclo do trabalho temporário. Desde a atração de candidatos até à gestão administrativa, passando pela seleção e acompanhamento, as plataformas digitais permitiram tornar os processos mais ágeis, escaláveis e acessíveis. Hoje, é possível gerir candidaturas reduzindo tempos de resposta e melhorando a experiência de todos os intervenientes.
No entanto, a digitalização veio expor com maior nitidez que o impacto da tecnologia não é uniforme. Este manifesta-se de forma distinta em quem procura trabalho, em quem recruta e em quem contrata, revelando tanto oportunidades como riscos do modelo.
Do lado dos candidatos, a preocupação é clara: a automatização excessiva pode transformar processos de seleção em filtros opacos, com os quais perfis sejam excluídos antes de serem compreendidos. Quando bem aplicada, a inteligência artificial pode contrariar este risco, funcionando como uma ferramenta de leitura mais ampla e objetiva das informações. Sistemas de recomendação baseados em múltiplos critérios permitem identificar talento que poderia ser ignorado por filtros automáticos, desde que a decisão final continue a ser humana.
Por sua vez, para as equipas, a automatização de tarefas operacionais, através de sistemas de análise de candidaturas e assistentes virtuais, permite libertar tempo para o que realmente distingue este setor: ouvir, interpretar e decidir com base em contexto real. A inteligência artificial, quando bem integrada, não retira relevância às equipas, pelo contrário, exige mais delas: mais critério, mais responsabilidade e maior capacidade de decisão.
Do lado dos clientes, a digitalização elevou o nível de exigência, já que as empresas esperam respostas rápidas, mas também mais ajustadas e sustentáveis. A tecnologia apoia o processo, mas não resolve, por si só, o eventual desalinhamento entre perfis e necessidades reais. A avaliação do match cultural e a capacidade de antecipar riscos continuam a depender do fator humano.
É neste contexto que o Eurofirms Group tem vindo a integrar a inteligência artificial através de uma parceria com a Telefónica Tech em Espanha, assente em duas vertentes complementares. Por um lado, um sistema de recomendação de candidatos que cruza informação de candidaturas e ofertas de emprego, analisando múltiplos parâmetros de forma objetiva, equitativa e inclusiva, apoiando a identificação dos perfis mais adequados. Por outro, um assistente virtual interno que permite às equipas aceder rapidamente a informação, automatizar tarefas e responder a questões operacionais em tempo real.
A partir desta premissa, acreditamos que estas ferramentas não substituem decisões nem excluem candidatos. Pelo contrário, organizam, priorizam e tornam mais eficiente o processo, mas mantêm a avaliação final nas mãos dos profissionais. É essa fronteira que define a diferença entre automatizar processos e desumanizá-los.
Mais do que uma transformação tecnológica, está em causa um novo paradigma. Num setor que liga pessoas a oportunidades, o verdadeiro desafio será garantir que, mesmo num contexto cada vez mais automatizado, a decisão continua a ser informada, consciente e humana.
Lucília Queirós
Comercial Business Leader Eurofirms Portugal