Anna Golsa: “O verdadeiro desafio da IA reside nas pessoas, não na tecnologia”

O debate sobre a inteligência artificial tem-se revelado em posições muito polarizadas. No entanto, para além de uma alienação massiva de postos de trabalho que muitos especialistas preveem, o verdadeiro desafio na gestão de talento reside na velocidade a que tudo se está a transformar. Os postos de trabalho não vão desaparecer como se de magia se tratasse, estão simplesmente a mudar para novas competências e funções.

As nossas competências profissionais têm prazo de validade

De acordo com o relatório “Future of Jobs Report 2025” do World Economic Forum, os empregadores esperam que 39% das competências básicas dos trabalhadores mudem até 2030, uma data que está cada vez mais próxima.

Paralelamente, o mesmo relatório conclui que o impacto da inteligência artificial e de outras transformações económicas não se irá traduzir apenas na criação de novas funções, mas também na redefinição de muitas das existentes, exigindo novas competências aos profissionais.

A conclusão é evidente: o mercado de trabalho exige um perfil profissional diferente. Já não basta acumular conhecimentos técnicos que se tornam obsoletos cada vez mais rapidamente; o que faz a diferença são as competências sociais: a capacidade de adaptação, a rapidez de aprendizagem e a flexibilidade perante cenários que mudam de um momento para o outro.

Um candidato que apresente hoje um domínio técnico irrepreensível pode ficar desatualizado em dois anos, enquanto alguém que manifeste uma curiosidade genuína, resiliência e facilidade para se renovar tem muito mais potencial. A liderança já não consiste em procurar talento estático e que se encaixe perfeitamente numa descrição de funções, mas sim em identificar e desenvolver essa capacidade de aprender a aprender, tanto na fase de seleção como dentro da própria organização. O reskilling deixou de ser um extra no pacote de benefícios para se tornar uma condição de sobrevivência.

O mito da Geração Z

Esta realidade é claramente visível nas novas gerações. Existe o mito de que a Geração Z, pelo facto de ser nativa digital, já possui os conhecimentos necessários. Trata-se de um erro de diagnóstico: de acordo com o relatório “2025 Gen Z & Millennial Survey” da Deloitte, 54% dos jovens portugueses da
Geração Z já utilizam inteligência artificial generativa no seu trabalho diário. No entanto, apenas 17% afirma já ter recebido formação específica nesta área, enquanto 29% planeia fazê-lo ao longo dos próximos 12 meses.

As novas gerações não temem a tecnologia, pelo contrário, o que pedem é discernimento, acompanhamento e uma cultura empresarial que lhes ensine a utilizar estas ferramentas com sensatez e ética. Procuram líderes, não apenas mais um programa de software. E é aqui que nós, profissionais do setor, temos de dar um passo em frente.

People first: as pessoas em primeiro lugar

É precisamente neste ponto que nós, que nos dedicamos à gestão de talento, devemos olhar ao espelho e reivindicar um princípio que hoje faz mais sentido do que nunca: People first. Paradoxalmente, para colocar verdadeiramente o fator humano no centro, a tecnologia é a nossa melhor aliada. Quando implementamos soluções de correspondência baseadas em IA para aperfeiçoar a adequação técnica dos candidatos e agilizar os processos, o objetivo não é, de forma alguma, delegar as decisões a um algoritmo.

O verdadeiro valor desta tecnologia não é substituir o olho clínico do recrutador, mas sim libertar a agenda da burocracia e das tarefas mecânicas. Ao automatizar o que é repetitivo, ganhamos um dos recursos mais valiosos: o tempo. Tempo para olhar o candidato nos olhos, avaliar a sua resiliência, a sua
empatia, a sua capacidade de aprender com os erros e a sua adequação aos valores da empresa. São precisamente estas as qualidades que nenhuma linha de código tem capacidade para analisar.

A inteligência artificial obriga-nos a ser mais ágeis e estratégicos, mas, acima de tudo, incentiva-nos a recuperar a essência do nosso trabalho. Quando todas as empresas tiverem acesso às mesmas ferramentas tecnológicas, a única vantagem realmente competitiva será a qualidade humana das equipas que as utilizam. O desafio continua a depender das pessoas.