Academia vs. indústria: Eurofirms alerta para desfasamento de talento

Consultores de recursos humanos da Eurofirms em reunião sobre recrutamento e formação de talento técnico

Multinacional considera que escassez de talento nos “ofícios” deve ser mitigada com maior investimento e parcerias junto do ensino profissional

Contratar talento para postos de trabalho especializado é um dos maiores desafios das empresas nacionais. De acordo com dados da Eurofirms – People first, o volume de vagas em funções técnicas aumentou bastante em 2025, mas verifica-se uma escassez de candidatos sem precedentes. Os dados da multinacional de gestão de talento refletem o paradoxo que o mercado de trabalho enfrenta: com a evolução cada vez mais rápida da tecnologia, perde-se talento nos chamados “ofícios”, que continuam a ser cruciais para setores como a indústria ou a construção civil.

36% dos perfis que se alinham com as vagas são estrangeiros

Entre as funções com mais procura, e também com mais dificuldade de recrutamento, destacam-se os serralheiros mecânicos, eletricistas industriais, eletromecânicos, fresadores, ferramenteiros, carpinteiros de limpos, soldadores e técnicos de manutenção e automação. Ainda tendo em conta os dados apurados pela Eurofirms, esta crise de talento é mais aguda em distritos onde o tecido industrial é denso e a renovação geracional é insuficiente. Aveiro, Castelo Branco, Leiria ou Évora são as regiões que enfrentam maiores dificuldades em encontrar perfis alinhados com as necessidades atuais do mercado de trabalho.

“Como consequência da cada vez menor disponibilidade, estes perfis tornaram-se ‘elites’ no chão de fábrica. Há, por isso, uma adaptação das empresas a esta nova realidade, reforçando benefícios como o ajuste de salários, tornando-os mais competitivos”, afirma Verónica Sousa, Selection leader da Eurofirms em Portugal. O responsável avança ainda que “a mão de obra estrangeira se tornou um dos principais motores de sobrevivência da indústria”. Atualmente, 36% dos candidatos colocados pela Eurofirms com estes perfis técnicos são estrangeiros, provenientes maioritariamente do Brasil, Angola e Guiné-Bissau. No entanto, estes recursos exigem um processo de adaptação, de forma a assegurar o alinhamento das competências técnicas e do manuseamento de máquinas.

Estigma do ensino profissional compromete formação de profissionais

A Eurofirms identifica um problema estrutural na base educativa. Na opinião de Verónica Sousa, “existe uma falha clara na substituição de gerações, uma vez que os jovens tendem a optar por áreas tecnológicas digitais em detrimento de trabalhos técnicos manuais”. Ainda de acordo com a responsável, isto deve-se a “uma mentalidade persistente de subvalorização dos cursos práticos e técnicos em Portugal. Ao contrário de outros países, onde o contacto com a prática profissional começa cedo, em Portugal o contacto com o mundo laboral ocorre tarde, sem um incentivo efetivo para os “ofícios”.

Num contexto em que os perfis seniores começam a ser também mais escassos, a Eurofirms alerta que este é um “problema profundo e que tende a agravar-se sem investimento sério na promoção do ensino profissional”. Para a multinacional de talento é crucial que haja maior incentivo e promoção de parcerias com escolas profissionais e centros de formação técnica para incentivar candidatos a requalificarem-se (reskilling) e a preencherem as vagas de ofertas especializadas.

Para mitigar o desfasamento entre o ensino e o mercado, a Eurofirms tem atuado como uma ponte estratégica através de um recrutamento especializado baseado em networking local e consultores dedicados, complementando o uso dos canais digitais tradicionais, onde estes perfis escasseiam. Em paralelo, mantém uma forte ligação às instituições de formação e de orientação profissional. Deste modo, consegue apoiar, simultaneamente, as empresas na criação de academias de formação interna e planos de especialização para colmatar a falta de graduados e garantir a retenção de talento.

“É urgente o investimento na requalificação de novos perfis, caso contrário as empresas poderão enfrentar um cenário onde, apesar de terem máquinas automatizadas, não terão ninguém para as operar ou manter”, conclui Verónica Sousa.